No meio da bagunça do meu quarto,
acho o outro par de meia que faltava.
Azul, de bolinhas brancas minúsculas.
Sem querer tocar o pé descalço no chão frio,
pulava feito saci lá e cá, cima em baixo.
Não demorei.
Nunca entendi bem porque meu quarto,
mesmo com a melhor das intenções
se via desarrumado.
Vezes, só uma camada fina de pó.
Outras, marcas de uma barata morta há dias.
A sensação de uma limpeza era aconchegante.
E necessária de tempos em tempos.
Um quarto nunca deveria ficar bagunçado.
Mas fica.
Meus sentimentos, meu coração, meus intestinos.
Doem de aflição.
Procuro, na bagunça das minhas ideias, um pensamento bom
que falta pra completar o equilíbrio mental.
Ao contrário de uma meia perdida, nem sempre acho fácil.
Há quem saiba porque minha cabeça não se arruma.
Porque ela se bagunça.
Porque se espalha, porque se desconcerta, porque dói.
Mesmo que eu arrume várias vezes,
Que eu encontre aquele pensamento bom, perdido.
Um vento frio volta e inunda meus pulmões
me enchendo de ansiedade, de um futuro incerto,
de desejos de melhora, de morrer logo, de viver pra sempre.
Um quarto nunca deveria ficar bagunçado.
terça-feira, 30 de maio de 2017
sexta-feira, 28 de março de 2014
Cheiro
Botão fulora na seca
eu venho ajudar o senhor
Orgulha de mim, pai
orgulha de mim...
Passado ficou pra bem longe
eu venho ver o que é
perdoa a mim, pai
perdoa pra mim...
Trabalho é muito, eu sei.
Enxada na mão, é terra demais.
Força divina, muito bem vinda, é.
firmeza no chão, confia em mim.
Pra tudo dá-se um jeito
me ensinou andar
Veio do Senhor, Pai
Veio do Senhor...
Lembrança, Vitória, um grito.
Manga espada no pé
Pega uma pra mim, pai.
Pega uma pra mim...
sábado, 8 de março de 2014
Bebida

Pássaro no fio, equilíbrio.
Faz forma na nuvem quando passa.
Quem foi que durmiu aqui? Você, não foi...
Se fosse, o vento levava o cheiro.
Ruma pro outro lado
Esquece o bar
A toalha de mesa manchada
O dia quente.
O Pássaro no fio, se foi. Caiu.
Atingido pelo vento frio
do teu hálito em choque
Leia um livro,
Distrai tua mente
e volta quando tudo estiver bem.
Te espero com asas abertas
Um pássaro morto.
Abertas, mas paradas.
Não vai adiantar mais.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
À Solo Seco
A chuva caiu cedo e o cheiro de terra invadiu minha casa.
Lá longe, ouço o som da zabumba batendo forte.
É fulano, agradecendo feliz aos céus do Senhor pelo choro de Deus.
Amanhã tem feijão na mesa, tem comida no prato.
Meu Deus... é muita bondade tua!
O Vento grosso e forte denuncia que a chuva é passageira.
Mas que venha.
Sacode o varal, quase leva embora meu teto de palha seca.
Meus olhos se enchem de lágrimas agradecidas.
É Deus abençoando minhas mãos, meus calos, meu suor.
É Deus alimentando minha mulher, meus filhos e minha fé.
Cai chuva, e não vá embora.
Desce suave pelo meu terreno, refresca o dia.
Porque eu só saio da janela quando você passar.
Lá longe, ouço o som da zabumba batendo forte.
É fulano, agradecendo feliz aos céus do Senhor pelo choro de Deus.
Amanhã tem feijão na mesa, tem comida no prato.
Meu Deus... é muita bondade tua!
O Vento grosso e forte denuncia que a chuva é passageira.
Mas que venha.
Sacode o varal, quase leva embora meu teto de palha seca.
Meus olhos se enchem de lágrimas agradecidas.
É Deus abençoando minhas mãos, meus calos, meu suor.
É Deus alimentando minha mulher, meus filhos e minha fé.
Cai chuva, e não vá embora.
Desce suave pelo meu terreno, refresca o dia.
Porque eu só saio da janela quando você passar.
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
Lá fora...
Hoje o vento bateu diferente no vidro da janela.
Sentado no sofá da sala, olhei pra trás, como tentasse adivinhar o que seria.
Uma leve dor na nuca distraiu minha atenção no livro que lia.
Eram os problemas chegando.
A discórdia, a falta de diálogo e de paciência, o futuro incerto.
Uma ansiedade que invade o peito e me deixa triste, assim, de repente.
O mal aparece tão inesperado como o tempo que muda no céu.
Nuvens negras e espessas se formam deslumbrantemente, anunciando um grosso temporal.
O trovão me assusta; os raios, iluminam a sala.
Olho, da janela, pro alto, e o vento, já mais intenso e úmido, molha de leve meu rosto. Fecho os olhos.
Me sinto perto de alguma coisa que eu não sei bem o que é. De Deus, do mar, do horizonte.
Encho os pulmões ao limite, como guardando fôlego para a tragédia que se aproxima.
Receio que o teto não seja firme, que as vigas balancem, e as paredes rachem do chão até em cima.
Que Deus nos dê forças para sustentar o que me resta, e levantar o que sobrar depois.
Hoje, o vento bateu diferente.
Sentado no sofá da sala, olhei pra trás, como tentasse adivinhar o que seria.
Uma leve dor na nuca distraiu minha atenção no livro que lia.
Eram os problemas chegando.
A discórdia, a falta de diálogo e de paciência, o futuro incerto.
Uma ansiedade que invade o peito e me deixa triste, assim, de repente.
O mal aparece tão inesperado como o tempo que muda no céu.
Nuvens negras e espessas se formam deslumbrantemente, anunciando um grosso temporal.
O trovão me assusta; os raios, iluminam a sala.
Olho, da janela, pro alto, e o vento, já mais intenso e úmido, molha de leve meu rosto. Fecho os olhos.
Me sinto perto de alguma coisa que eu não sei bem o que é. De Deus, do mar, do horizonte.
Encho os pulmões ao limite, como guardando fôlego para a tragédia que se aproxima.
Receio que o teto não seja firme, que as vigas balancem, e as paredes rachem do chão até em cima.
Que Deus nos dê forças para sustentar o que me resta, e levantar o que sobrar depois.
Hoje, o vento bateu diferente.
segunda-feira, 22 de julho de 2013
Toma
O Amor meiou a metade do meu amor.
Molhou o moletom no varal.
Me pergunto quem tomou do meu copo o meio que sobrou do meu amor.
A metade que restou foi você quem tomou.
Já tinha pouco... e você tomou o resto.
Bem vinda, amor.
você chegou e me tomou tudo, levando embora o resto do copo do meu amor. Um vendaval.
Me confundiu, diluiu tudo o que eu tinha.
Que bom que você chegou, meu amor.
Agora estou completo, mesmo sabendo que meu copo meiou mais pro vazio.
O amor esvaziou... porque você tomou, mas me completou com o teu.
Chega, amor. E não vá embora.
segunda-feira, 15 de julho de 2013
(Re)doma
A flor que sobrou no jarro resiste em viver.
De esperança a terra ainda se firma.
A chuva limpou o pecado da janela e o mar salgou o amor.
O Que queres pro jantar?
Fome, nada?
Não queres nada, como sempre.
Porque voltas saciado de uma outra casa.
Não me beija porque teus lábios se cansaram com outra boca.
Vou deixar o baile, rir sozinha, me calar.
Voltar pra cama e me deitar no colchão frio que tu insistes em não trocar.
Tu não presta pra nada.
Nem trocas o colchão... nem trocas a mim, nem muda a palavra.
De esperança a terra ainda se firma.
A chuva limpou o pecado da janela e o mar salgou o amor.
O Que queres pro jantar?
Fome, nada?
Não queres nada, como sempre.
Porque voltas saciado de uma outra casa.
Não me beija porque teus lábios se cansaram com outra boca.
Vou deixar o baile, rir sozinha, me calar.
Voltar pra cama e me deitar no colchão frio que tu insistes em não trocar.
Tu não presta pra nada.
Nem trocas o colchão... nem trocas a mim, nem muda a palavra.
terça-feira, 25 de junho de 2013
O Pouco do meu bem
Pro pasto que me conduziu não tinha grama, não tinha nada.
No mar que você me afogou não tinha água, nem tinha sal.
Pra casa onde eu fui dormir só tinha cama e teto.
Rega mais. Põe-me no sol. Troca minha terra, meu chão.
Liberta-me. Me ensina a voar. Voa, pássaro preto. Voa.
Vai pintar de amarelo o rio. Caiar o muro.
Bom Dia, meu bem. Entra. Senta. Toma um chá. Dorme comigo.
Prepara um café, põe uma margarida na leiteira e me serve a bandeja na cama. Diz que me ama. Faz-me rir e acreditar que se importa comigo.
Finge que vai embora, depois fica. Faz como toda vez que vem.
Muda o tempo. Molha o quintal.
O rodo do tempo trata de secar o quintal da vida.
E a vassoura da vida varre pra debaixo do tapete o pó do passado.
- A vida precisa de pouco, meu bem: Só de água, amor e segredos.
No mar que você me afogou não tinha água, nem tinha sal.
Pra casa onde eu fui dormir só tinha cama e teto.
Rega mais. Põe-me no sol. Troca minha terra, meu chão.
Liberta-me. Me ensina a voar. Voa, pássaro preto. Voa.
Vai pintar de amarelo o rio. Caiar o muro.
Bom Dia, meu bem. Entra. Senta. Toma um chá. Dorme comigo.
Prepara um café, põe uma margarida na leiteira e me serve a bandeja na cama. Diz que me ama. Faz-me rir e acreditar que se importa comigo.
Finge que vai embora, depois fica. Faz como toda vez que vem.
Muda o tempo. Molha o quintal.
O rodo do tempo trata de secar o quintal da vida.
E a vassoura da vida varre pra debaixo do tapete o pó do passado.
- A vida precisa de pouco, meu bem: Só de água, amor e segredos.
sexta-feira, 14 de junho de 2013
Estrada
Gramática, Matemática... são coisas tão nostálgicas.
Predicado, Regra de três... Prometo que vou me esquecer de você de uma vez.
Eu pego o ônibus e ele faz a curva, mudando a direção.
Isso me fez lembrar do nosso amor que também decidiu mudar de lugar.
Predicado, Regra de três... Prometo que vou me esquecer de você de uma vez.
Eu pego o ônibus e ele faz a curva, mudando a direção.
Isso me fez lembrar do nosso amor que também decidiu mudar de lugar.
quinta-feira, 7 de março de 2013
Breve Outono
O mês de abril chegou sorrateiro como o sono.
O tempo aberto, o clima ameno, o céu azul. Não estava quente, nem frio.
A luz do sol refletia na calçada de mármore da sacada.
E as folhas das palmeiras formavam uma sombra engraçada: Um monte de dedos delgados se entrelaçando.
O cachorro fazia a sesta da tarde. Com os olhos fechados, a boca, encostada no chão de terra, inflava e desinflava, emitindo leves gritinhos, como se sonhasse com algo. Bicho sonha? Devia.
O sonho nada mais é do que uma realidade desejada.
Foi nessa estação transitória que eu me encontrava.
Sentado no canto da varanda numa cadeira de balanço,
tinha visão do quintal todo.
Tinha a sensação do vasto limitado.
Limitado pelos muros e pela minha visão.
Foram nestas condições que ponderei sobre minha realidade:
Eu, sozinho. Você, não.
Eu sempre estive do seu lado e você do lado de outro.
Sempre existiam duas pessoas do seu lado.
Eu sempre era uma delas.
O outro sempre mudava.
Sempre quis te dizer que te amava. Sempre.
Mas não dava porque você sempre estava acompanhada.
Eu sempre esperava a próxima estação.
Talvez com os novos tempos chegando, Imaginava que isso trouxesse uma brisa de renovação e coragem.
Os tempos passaram e o vento mudou nosso amor de direção.
Eu não falei de mim pra você.
E você não me deu tempo pra dizer que te amo.
O tempo aberto, o clima ameno, o céu azul. Não estava quente, nem frio.
A luz do sol refletia na calçada de mármore da sacada.
E as folhas das palmeiras formavam uma sombra engraçada: Um monte de dedos delgados se entrelaçando.
O cachorro fazia a sesta da tarde. Com os olhos fechados, a boca, encostada no chão de terra, inflava e desinflava, emitindo leves gritinhos, como se sonhasse com algo. Bicho sonha? Devia.
O sonho nada mais é do que uma realidade desejada.
Foi nessa estação transitória que eu me encontrava.
Sentado no canto da varanda numa cadeira de balanço,
tinha visão do quintal todo.
Tinha a sensação do vasto limitado.
Limitado pelos muros e pela minha visão.
Foram nestas condições que ponderei sobre minha realidade:
Eu, sozinho. Você, não.
Eu sempre estive do seu lado e você do lado de outro.
Sempre existiam duas pessoas do seu lado.
Eu sempre era uma delas.
O outro sempre mudava.
Sempre quis te dizer que te amava. Sempre.
Mas não dava porque você sempre estava acompanhada.
Eu sempre esperava a próxima estação.
Talvez com os novos tempos chegando, Imaginava que isso trouxesse uma brisa de renovação e coragem.
Os tempos passaram e o vento mudou nosso amor de direção.
Eu não falei de mim pra você.
E você não me deu tempo pra dizer que te amo.
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
"RICIFE"
Quem sabe outra hora a gente se encontra por aí
andando pelo centro da cidade.
Atravessando as pontes que cortam os rios e ligam as duas metades dela.
O que fez a gente se perder de vez?
Não foi o meu ciúme?
Ou meu péssimo costume?
de me banhar do perfume
repulsivo da indiferença?
O céu do centro da cidade não está mais azul
como o céu de quando a gente se conheceu.
Não reconheço mais o cinza fumaça
Se é poluição ou a chuva que se apressa.
Mas eu continuo andando alheio aos carros no centro da cidade
que já não correm como antigamente.
Muitos que são, competem com tanta gente.
Que sabe lá o que sentem, mentem.
As árvores do centro da cidade respiram menos que antes.
São menores que os prédios de azulejo que cresceram paralelos adiante.
Mas continuam sendo maiores que nós e as crianças
que nelas trepam para chupar mangas espada lá no alto.
As ruas do centro da cidade não deixam mais meus passos marcados.
São largas e compridas. Cheias de lojas e sujeira no chão.
Não me reconheço mais no centro da cidade
Eu não tenho mais identidade.
Agora faço parte de um monte de gente que tiram da cidade o seu nome: Cidadão.
Deve ter sido por isso que a gente não se encontrou mais.
É que mudaram o centro da cidade.
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
Poeira
A quantidade de poeira que cobre como um tapete cinzento os móveis do meu quarto são sintomas do desinteresse pelas coisas que acontecem á minha margem.
As decepções sofridas em vários campos da minha vida talvez me tenham feito ficar inerte e insensível aos problemas alheios.
O egoísmo, se não chegou no seu limite tolerável, vai daqui a alguns dias transbodar, como o gás do refrigerante que cresce dentro do copo até manchar a toalha de mesa.
A toalha da minha mesa.
Amizade, família, trabalho, vizinhos, colegas, cúmplices, amores, inimigos, amantes, empregados e todas as outras coitadas criaturas que estão próximas a mim e não se encaixam nas categorias do meu vocabulário pobre e mesquinho.
Todos saem manchados do meu egoísmo em excesso.
Ah... Pudera alguém perceber e vivenciar meus problemas.
Entendê-los.
Esta é a desculpa esfarrapada de todos os egoístas incompreendidos, todos os problemáticos incompreendidos, todos os neuróticos incompreendidos, todos os depressivos incompreendidos.
A deselegância do próximo não é a ignorância do diagnóstico.
É a ignorância da compreensão.
É ouvir um enfermo e achar que o que ele sente é frescura.
Peço o perdão de todos pela intolerância que cultivei desde moço.
Não soube colocar nela cabresto.
Cresceu e assoberbou-se, enraizando no meu ser a falta de empatia.
Perdoem-me.
Quem sabe um dia se recordem de alguma virtude minha.
Quando este dia chegar, acreditem, farão anos que já não existo.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Trilhos
Parado na estação, notei que haviam dois trens imóveis a cada lado.
Um acabava de chegar e abria as portas para o enxágue de gente oriundas do centro.
O outro, também de portas abertas, aguardava a chegada e entrada dos que queriam se
distanciar do bairro.
Eu havia saído do primeiro trem.
Senti uma vontade súbita de não subir a escada rolante que me levava à saída da estação.
Quis ficar. E por um instante meditei na hipótese de voltar para onde havia acabado de vir. Pegar o trem de retorno. Enquanto a multidão se apressava para chegar em casa, se atropelando e correndo rumo ao êxodo, eu parei. Plantado como pé de abacate com meu agasalho verde, senti o vento gelado do frio que fazia na estação sem paredes. Cheguei a dar dois passos em direção ao trem. Recuei. Enfim, decidi que não adiantava retardar a saída, porque uma hora ou outra teria que sair dali. Porque a estação, uma hora, fecha.
Na vida existem momentos que parecem nos convidar a refletir nosso caminho - o percorrido, e o que temos que percorrer. O Passado, o presente e o futuro formam uma trindade singular, rara e intolerante. A nostalgia vem à tona nos
instigando a relembrar a vida pretérita e sentir prazer daquilo que já passou. Rememoramos as risadas, os bons momentos e como de costume, coisas indesejáveis e incômodas fazemos questão de minimizar. Daí vem um desejo louco e fisicamente impossível de querer que o tempo volte. Mas é no instante em que nos damos conta dessa irrealidade, que percebemos nossa atual condição: O presente. O agora. O presente que não para, que constantemente nos empurra à frente, o presente efêmero e por vezes injusto que não nos deixa refletir para tomar decisões acertadas. Seguimos adiante,deixando o passado para trás, o pleonasmo da vida, e rumamos ao futuro que nos aguarda,firme e impreterível, exato e incerto. O paradoxo da vida, porque é assim que tem que ser.
Os dois trens: o de chegada e o de partida, se vão.
E então, subimos a escada rolante da estação de nossas vidas impelidos pela força do tempo em direção ao duvidoso, porém delicioso futuro que aguarda ansiosamente nossa chegada. Subimos as escadas da saída porque um hora ou outra, a estação da vida se fecha.
Um acabava de chegar e abria as portas para o enxágue de gente oriundas do centro.
O outro, também de portas abertas, aguardava a chegada e entrada dos que queriam se
distanciar do bairro.
Eu havia saído do primeiro trem.
Senti uma vontade súbita de não subir a escada rolante que me levava à saída da estação.
Quis ficar. E por um instante meditei na hipótese de voltar para onde havia acabado de vir. Pegar o trem de retorno. Enquanto a multidão se apressava para chegar em casa, se atropelando e correndo rumo ao êxodo, eu parei. Plantado como pé de abacate com meu agasalho verde, senti o vento gelado do frio que fazia na estação sem paredes. Cheguei a dar dois passos em direção ao trem. Recuei. Enfim, decidi que não adiantava retardar a saída, porque uma hora ou outra teria que sair dali. Porque a estação, uma hora, fecha.
Na vida existem momentos que parecem nos convidar a refletir nosso caminho - o percorrido, e o que temos que percorrer. O Passado, o presente e o futuro formam uma trindade singular, rara e intolerante. A nostalgia vem à tona nos

instigando a relembrar a vida pretérita e sentir prazer daquilo que já passou. Rememoramos as risadas, os bons momentos e como de costume, coisas indesejáveis e incômodas fazemos questão de minimizar. Daí vem um desejo louco e fisicamente impossível de querer que o tempo volte. Mas é no instante em que nos damos conta dessa irrealidade, que percebemos nossa atual condição: O presente. O agora. O presente que não para, que constantemente nos empurra à frente, o presente efêmero e por vezes injusto que não nos deixa refletir para tomar decisões acertadas. Seguimos adiante,deixando o passado para trás, o pleonasmo da vida, e rumamos ao futuro que nos aguarda,firme e impreterível, exato e incerto. O paradoxo da vida, porque é assim que tem que ser.
Os dois trens: o de chegada e o de partida, se vão.
E então, subimos a escada rolante da estação de nossas vidas impelidos pela força do tempo em direção ao duvidoso, porém delicioso futuro que aguarda ansiosamente nossa chegada. Subimos as escadas da saída porque um hora ou outra, a estação da vida se fecha.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Bumerangue
Num dia de semana, Jonas, ainda pirralho, lançava o bumerangue pelos céus do parque.
Não entendia porque todas as vezes tinha de buscá-lo longe para relançá-lo, se o objetivo do artefato era voltar para as mãos do arremessador.
A insatisfação de não ver o bumerangue fazer a sua parte, fez Jonas guardá-lo no seu baú de brinquedos em meio aos outros.
Jonas cresceu. Se desenvolveu e apaixonou-se. Morava sozinho num apartamento pequeno o suficiente para cabê-lo junto com suas idéias.
Ainda se convalescia do fim do namoro de 2 anos e meio, ou quase isso (nunca sabemos exatamente o tempo do amor) quando apareceu Lígia. Uma estagiária de corpo delgado, claro e pequeno, olhos verdes e cabelo ralo e fino.
Os dois rapidamente encontraram pontos em comum. Tantos pontos evoluiram para uma ligação tão estreita que impeliu Jonas a covidá-la como hóspede por tempo indefinido em seu apartamento.
Ambos estavam felizes com o andamento de suas vidas conjugadas. Dormiam, acordavam, escovavam os dentes, trabalhavam juntos.
Um belo dia de semana depois da janta insossa preparada por Lígia, o interfone tocou.
-Seu Jonas? É a Dona Melissa, pode deixar subir?
Ouvir aquele nome de novo parecia assusutador mas a curiosidade em saber o motivo da revisita o fez descer até a portaria do prédio. Vestido com um samba-canção e uma regata branca pouco larga, o que indicava que o sono estava iminente, Jonas viu a ex aos prantos pedindo pra subir e conversarem. Ele se mostrava incrivelmente surpreso com aquele pedido porém negou-se a deixá-la subir.
Alguns meses antes Melissa havia ido embora sem nenhum diálogo, a não ser um monólogo escrito por ela mesma, num pedaço de papel rasgado da agenda do ano anterior. Agora, ela pedia pra voltar. Seu coração não deveria titubear. Mas titubeou.
No dia seguinte se encontraram no lugar marcado ainda naquela noite da portaria. Durante a conversa, Jonas não conseguia se concentrar nas desculpas vomitadas com saliva que saiam da boca de Melissa. Pensava no dia que ela se foi, pensava em Lígia e pensava naquela situação ridícula em que se encontrava. Decidiu, convictamente, que não havia volta.
As pessoas vem e vão. Vão quando não queremos e vem quando não esperamos.
Ao chegar em casa, de volta do encontro, Jonas procurou pelo bumerangue de criança. Achou. Agora, reparava naquele brinquedo com outros olhos.
Não entendia porque todas as vezes tinha de buscá-lo longe para relançá-lo, se o objetivo do artefato era voltar para as mãos do arremessador.
A insatisfação de não ver o bumerangue fazer a sua parte, fez Jonas guardá-lo no seu baú de brinquedos em meio aos outros.
Jonas cresceu. Se desenvolveu e apaixonou-se. Morava sozinho num apartamento pequeno o suficiente para cabê-lo junto com suas idéias.
Ainda se convalescia do fim do namoro de 2 anos e meio, ou quase isso (nunca sabemos exatamente o tempo do amor) quando apareceu Lígia. Uma estagiária de corpo delgado, claro e pequeno, olhos verdes e cabelo ralo e fino.
Os dois rapidamente encontraram pontos em comum. Tantos pontos evoluiram para uma ligação tão estreita que impeliu Jonas a covidá-la como hóspede por tempo indefinido em seu apartamento.
Ambos estavam felizes com o andamento de suas vidas conjugadas. Dormiam, acordavam, escovavam os dentes, trabalhavam juntos.
Um belo dia de semana depois da janta insossa preparada por Lígia, o interfone tocou.
-Seu Jonas? É a Dona Melissa, pode deixar subir?
Ouvir aquele nome de novo parecia assusutador mas a curiosidade em saber o motivo da revisita o fez descer até a portaria do prédio. Vestido com um samba-canção e uma regata branca pouco larga, o que indicava que o sono estava iminente, Jonas viu a ex aos prantos pedindo pra subir e conversarem. Ele se mostrava incrivelmente surpreso com aquele pedido porém negou-se a deixá-la subir.
Alguns meses antes Melissa havia ido embora sem nenhum diálogo, a não ser um monólogo escrito por ela mesma, num pedaço de papel rasgado da agenda do ano anterior. Agora, ela pedia pra voltar. Seu coração não deveria titubear. Mas titubeou.
No dia seguinte se encontraram no lugar marcado ainda naquela noite da portaria. Durante a conversa, Jonas não conseguia se concentrar nas desculpas vomitadas com saliva que saiam da boca de Melissa. Pensava no dia que ela se foi, pensava em Lígia e pensava naquela situação ridícula em que se encontrava. Decidiu, convictamente, que não havia volta.
As pessoas vem e vão. Vão quando não queremos e vem quando não esperamos.
Ao chegar em casa, de volta do encontro, Jonas procurou pelo bumerangue de criança. Achou. Agora, reparava naquele brinquedo com outros olhos.
sábado, 7 de abril de 2012
A peça
Hoje, é você quem vai. Amanhã, serão outros.
Como num quebra-cabeça ás avessas, a cada jogada formada perco uma peça em vez de juntá-la.
Paulatinamente a imagem se desfaz quando deveria se formar.
Me pergunto como será minha vida agora...
Não essa vida real que se mantém com palpitações cardíacas.
Eu falo da vida que existe por trás da vida.
Os sentimentos, as companhias, os sabores, o vai e vem do trabalho pra casa, os momentos felizes e tristes, as decepções, as alegrias, o orgulho, o nervosismo, as lembranças... As saudades.
Tudo isso vai mudando até mudar de vez.
Me cansei de ficar perdendo as peças.
A gente vai aprendendo a se adaptar ao novo cenário até que a última peça do palco seja retirada. Eu.
Enquanto houver platéia; enquanto existir alguém por quem me interessar e me assistir, Sigo.
Virão outros dias que vão me fazer esquecer os anteriores.
E nesse processo, as coisas ao meu redor se transformam me fazendo acreditar que tudo voltou ao normal.
Não é que tenha voltado. Eu é que me acostumei com a novidade.
Amigos não são aqueles que contam segredos entre si.
São aqueles que respeitam os segredos deles, mesmo sem saber quais são.
Não são aqueles que conversam o tempo todo.
Mas os são, aqueles que sabem o momento certo de ficar quieto e simplesmente, ouvir.
Lá se vai, pela janela da sala, mais uma risada.
Que os ventos se encarreguem de trazê-la de volta
e que o tempo e a distância não formem uma barreira invisível entre nossas cartas.
Como num quebra-cabeça ás avessas, a cada jogada formada perco uma peça em vez de juntá-la.
Paulatinamente a imagem se desfaz quando deveria se formar.
Me pergunto como será minha vida agora...
Não essa vida real que se mantém com palpitações cardíacas.
Eu falo da vida que existe por trás da vida.
Os sentimentos, as companhias, os sabores, o vai e vem do trabalho pra casa, os momentos felizes e tristes, as decepções, as alegrias, o orgulho, o nervosismo, as lembranças... As saudades.
Tudo isso vai mudando até mudar de vez.
Me cansei de ficar perdendo as peças.
A gente vai aprendendo a se adaptar ao novo cenário até que a última peça do palco seja retirada. Eu.
Enquanto houver platéia; enquanto existir alguém por quem me interessar e me assistir, Sigo.
Virão outros dias que vão me fazer esquecer os anteriores.
E nesse processo, as coisas ao meu redor se transformam me fazendo acreditar que tudo voltou ao normal.
Não é que tenha voltado. Eu é que me acostumei com a novidade.
Amigos não são aqueles que contam segredos entre si.
São aqueles que respeitam os segredos deles, mesmo sem saber quais são.
Não são aqueles que conversam o tempo todo.
Mas os são, aqueles que sabem o momento certo de ficar quieto e simplesmente, ouvir.
Lá se vai, pela janela da sala, mais uma risada.
Que os ventos se encarreguem de trazê-la de volta
e que o tempo e a distância não formem uma barreira invisível entre nossas cartas.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Hiato
O som da porta batendo atrás de vocêfoi o pior sussurro que já ouvi.
Você não foi embora por raiva mas por desgosto de uma vida conjugal corroída pelo marasmo.
Não imagina como é difícil reconhecer que nessa tua fuga, fui eu quem abriu a cela.
Entreguei a chave do portão da frente e me sentei no banco, passivamente alheio ás nossas brigas.
Teu sorriso não batia com o meu.
Os olhos se desencontravam.
No restaurante pedi a mesma mesa e uma garrafa de vinho.
Duas taças.
Pra não perder o costume, enchi ambas..
6 anos faz hoje da troca de nossas vidas.
Um encontro vocálico, separado pelos hífens do tempo.
Você não foi embora por raiva mas por desgosto de uma vida conjugal corroída pelo marasmo.
Não imagina como é difícil reconhecer que nessa tua fuga, fui eu quem abriu a cela.
Entreguei a chave do portão da frente e me sentei no banco, passivamente alheio ás nossas brigas.
Teu sorriso não batia com o meu.
Os olhos se desencontravam.
No restaurante pedi a mesma mesa e uma garrafa de vinho.
Duas taças.
Pra não perder o costume, enchi ambas..
6 anos faz hoje da troca de nossas vidas.
Um encontro vocálico, separado pelos hífens do tempo.
terça-feira, 5 de abril de 2011
Acabou
Andava cabisbaixo evitando olhar as faces que me cercavam.
Tentando, por vezes em vão, não te reconhecer nos rostos de outras pessoas.
Outro tempo te vi no mesmo vagão que eu.E como nos outros tempos, fiquei sem ar.Que ódio! Não havia porquê ficar assim . Ou havia?
Agora ando cabisbaixo por medo.Medo de que de tanto te procurar sem achar,perceber que qualquer outro olor impregnado num pescoço delicado e alheio me faça sumir tua lembrança.
Não sei se vou suportar a ideia de perceber que sou suficientemente capaz de me apaixonar por outras pernas que não as suas.
A utopia de que você pode não fazer parte da minha vida.
Compreender que o ar que antes me faltava nos pulmões quando te via, hoje sobra no peito, reservado para se rarear ao notar outro alguém.
Decidi rasgar do dicionário todas as palavras que começam com teu nome.
Já não me lembro dele.Não sonho contigo. Nem te percebo mais.
São nas pequenas coisas que faço no meu cotidiano medíocre e solitário, onde não me recordo de você, que consigo auto-afirmar que agora sim, acabou.
Tentando, por vezes em vão, não te reconhecer nos rostos de outras pessoas.
Outro tempo te vi no mesmo vagão que eu.E como nos outros tempos, fiquei sem ar.Que ódio! Não havia porquê ficar assim . Ou havia?
Agora ando cabisbaixo por medo.Medo de que de tanto te procurar sem achar,perceber que qualquer outro olor impregnado num pescoço delicado e alheio me faça sumir tua lembrança.
Não sei se vou suportar a ideia de perceber que sou suficientemente capaz de me apaixonar por outras pernas que não as suas.
A utopia de que você pode não fazer parte da minha vida.
Compreender que o ar que antes me faltava nos pulmões quando te via, hoje sobra no peito, reservado para se rarear ao notar outro alguém.
Decidi rasgar do dicionário todas as palavras que começam com teu nome.
Já não me lembro dele.Não sonho contigo. Nem te percebo mais.
São nas pequenas coisas que faço no meu cotidiano medíocre e solitário, onde não me recordo de você, que consigo auto-afirmar que agora sim, acabou.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Vontade de sentir o passado

Aparecestes em minha vida quando ainda era adolescente.
E fostes embora antes de me amadurecer.
Me oferecestes um pedaço de cultura e até hoje ainda é meu prato predileto.
Amo Cinema, Livro, Teatro, Exposições.
Me apresentastes pela pimeira vez a amizade verdadeira.
Acreditas que faz tempo que não a vejo?
Ela não me escreve nem sequer recados curtos.
Me deixastes depositar em teus ouvidos confidências por demais íntimas.
Me devolvestes o prazer de gargalhar de bobeiras.
Me cansastes de tanto andar pela Paulista.
Me fizestes ansiar teu telefonema.
Revelastes algo em mim que nem meus olhos ousaram saber.
Fostes minha primeira alegria ao surgir e minha primeira tristeza ao desvanecer.
Ou fui eu quem sumiu primeiro?
Foram boas as manhãs, ótimas as noites.
Corpo delgado, tronco curto, alma maior que o corpo.
Se te falta beleza, tens inteligência e simpatia de sobra.
Meu Deus...Há quanto tempo não te vejo?
Por onde andas?
Como vai teu pai, tua mãe, teus irmãos?
Sais com quem?
Namoras?
Permaneces sozinha?
Sentado no ônibus, tudo passava rápido externamente.
Vi, de repente, um rosto parecido com o teu.
Mas não eras tu.
Indício de saudade?
Prefiro supor ser a prova de que jamais esquecerei teu rosto...
...Jamais esqucerei de você. Nem de nós.
domingo, 12 de dezembro de 2010
Circo da solidão

Quando dou risadas ou os faço sorrir,
é só pra não transparecer meu íntimo.
Meu bom humor é como um vidro fumê
que impede que os de fora vejam meu interior.
Meu sorriso aberto é um disfarce.
Como numa máscara,
a única coisa verdadeira são meus olhos.
É como se o sol, com todo seu calor e exuberância externos
escondesse em seu núcleo uma pedra imensa de gelo.
Como se os cientistas descobrissem que a real fonte
do seu calor natural fosse, pra surpresa de muitos, um meteóro
de gelo grandioso e concretizado bem no meio da estrela.
"O sol é falso!" - Diriam muitos.
Mas se o sol na verdade fosse assim, ele não seria falso.
Ele seria extraordinário. Mais do que já é.
Um mágico capaz de transformar tanta frieza em calor intenso.
Minhas decepções, escondo dentro de mim.
Junto com elas: minhas raivas, tristezas, angustias...
Por fora, me pinto de palhaço:
Pó branco, nariz vermelho e sapatos maiores que meus passos.
No circo da minha vida, a platéia ri.
Sem notar que sou tão triste quanto eles.
Seguidores
Quem sou eu
- Thiago.Araujo
- Sou aquilo que os outros dizem quem sou. Afinal, acreditam mais neles que em mim.


